Milagres acontecem. Ou pelo menos, aconteciam em toda a extensão do território nacional durante os séculos XVIII, XIX, até as primeiras décadas do XX. Esculturas, quadros, altares, santuários e templos monumentais dão provas da profícua relação entre o devoto e a divindade. São o ex-votos. Em latim, votu significa promessa. Ex-voto, então, é a prenda, o pagamento pela graça alcançada, o milagre. Em Angra dos Reis esses "Milagres" foram preservados por um ato de heroísmo de dois moradores, que cuidaram pessoalmente de um acervo para o qual o arquiteto Lúcio Costa havia chamado a atenção em 1947.
Mais de uma centena de tábuas, milagres típicos de Angra dos Reis e de suma importância para compreensão do conjunto da arte sacra brasileira, os agradecimentos em forma de placa de madeira são característicos da região e chamam atenção pela peculiaridade da técnica. As cores e os recortes na parte superior da tábua mostram, por exemplo, a influência do barroco sobre os artistas locais. As imagens retratam, quase sempre, a cura, a ação do divino. A maior parte dos devotos pedia para se livrar de doenças. Entre elas, catarata, varíola, sarampo, ou ferimentos graves. O primeiro hospital da região só foi construído em 1845 pela própria Igreja. Na ausência de médicos, vacinas ou remédios, os moradores apelavam aos céus.
As tábuas pintadas encontradas no Convento de São Bernardino de Sena e nas capelas de Santa Luzia e de Nossa Senhora da Conceição, comprovam o poder de cura da fé, os milagres. Em 2002 a Eletronuclear patrocinou a publicação do livro Milagres: Os ex-votos de Angra dos Reis. Organizado por José Pessôa, pesquisador do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o livro reúne, pela primeira vez, os ex-votos confeccionados na cidade.