Lenda
da Mãe do Ouro
Em certas
tardes de verão na Ilha Grande a passarada que canta perto
das praias cai no mais profundo silêncio. Levanta-se no alto
de um dos picos mais elevados da Ilha um facho de luz incandescente,
que se projeta como um arco-íris, lá para as bandas
da terra, no rumo do continente, invisível de tão longe.
Os mais
antigos recolhem suas criações a esse sinal, entrevisto
pelas frestas de suas portas e janelas semifechadas, e se benzem em
recolhimento.
Um único pássaro – o turi – tem a permissão
de avisar o incauto rapazinho, sempre o mais hábil e sabido,
para que não se deixe levar pela fascinação da
Mãe do Ouro. Mas a idade do garoto, a sua sabedoria safada
de adolescente, fazem com que uma venda de conhecimento e maldade
lhe dêem uma visão de sabedoria das coisas.
E o rapazinho
lá vai morro a cima. O facho lá esta, a grande curva
dourada a brotar de dentro daquela noite. Do lado do continente ele
se vira, lá esta o outro lado do estirão dourado. Precipita-se
no interior da gruta. Ao centro está um poço de águas
verdes e paradas, e no seu bordo, sentada, mas de costas para o garoto,
uma mulher de longos cabelos de ouro e completamente nua, que parece
pensativa, a se debruçar sobre o liquido translúcido
daquelas águas. O rapaz resiste e bravamente, na ânsia
de conhecer mais, de ir até o fim, pensando em gabar-se, ganha
coragem. |